Vida, paixão, pindaíbas, estéticas abandonadas, estéticas corrompidas, retratos comuns, desejos.

sábado, agosto 05, 2006

Jogo de bicho


Quando morava na rua da Lama em Vitória, um dia estava voltando pra casa quando vi uma banca de jogo de bicho quebrada...


Ele quebrou a banca de jogo de bicho, não por sentir-se lesado, não por ato de justiça ou simples ato de loucura, não, não foi por achar-se vazio, não pelo provável pileque, não se achava desesperado, nem tinha medo, não pela incrível sensação de pensar em branco. Talvez ele quisesse êxtase. Mas nada disso importa, o que importa é que naquele dia quebrou tudo, banca, bicheiro, carros e espectadores.
Imagine que tudo isso possa ter sido apenas simpatia, é... mandinga, ou um sincero pretexto pra uma explosão necessária, um grito, talvez ele quisesse um suicídio inverso que o devolvesse à vida.
Poderia ser só incapacidade literária? Chifre? Homossexualidade enrustida?


Não.


Talvez fosse um mero devaneio. Uma tarde entediado, não um problema existencial propriamente dito, mas por uma regularidade rigorosa das horas, que temos chamado tédio. Não por solidão ou demasiado sentimento de fracasso.

Transeuntes passaram à noite imaginando o que teria sido o confronto.
As folhas numeradas cobriam a rua. E sobre a banca quebrada o bloco de escorpião.

Thiago Luz Raft

2 comentários:

roberto prado disse...

Quebrar o azar dá sorte?

Muito legal o teu blog.
Grande abraço.
Roberto

mãos? disse...

Muito bom!

Lis Motta.