Vida, paixão, pindaíbas, estéticas abandonadas, estéticas corrompidas, retratos comuns, desejos.

sábado, agosto 05, 2006

Jogo de bicho


Quando morava na rua da Lama em Vitória, um dia estava voltando pra casa quando vi uma banca de jogo de bicho quebrada...


Ele quebrou a banca de jogo de bicho, não por sentir-se lesado, não por ato de justiça ou simples ato de loucura, não, não foi por achar-se vazio, não pelo provável pileque, não se achava desesperado, nem tinha medo, não pela incrível sensação de pensar em branco. Talvez ele quisesse êxtase. Mas nada disso importa, o que importa é que naquele dia quebrou tudo, banca, bicheiro, carros e espectadores.
Imagine que tudo isso possa ter sido apenas simpatia, é... mandinga, ou um sincero pretexto pra uma explosão necessária, um grito, talvez ele quisesse um suicídio inverso que o devolvesse à vida.
Poderia ser só incapacidade literária? Chifre? Homossexualidade enrustida?


Não.


Talvez fosse um mero devaneio. Uma tarde entediado, não um problema existencial propriamente dito, mas por uma regularidade rigorosa das horas, que temos chamado tédio. Não por solidão ou demasiado sentimento de fracasso.

Transeuntes passaram à noite imaginando o que teria sido o confronto.
As folhas numeradas cobriam a rua. E sobre a banca quebrada o bloco de escorpião.

Thiago Luz Raft

sexta-feira, julho 28, 2006

Louvado Seja Deus...



O mar de cartas de baralho espalhadas pela praça, sujas, rasgadas e mulambentas, num impulso, Hugo pesca sem olhar uma das cartas, Dama de copas, O mar, Infinito, Fractais-distantes-se-aproximam-se-recolhem-se-fecham-se-dilatam, O olhar sério da dama, A dor séria do mundo impressa sob seus olhos exaustos, Sua cor, sua textura, Seu rubor hora calmo, Hora quente, Sua paz e desespero, Seu vestido-armadura, A flor em suas mãos, O mundo parece convulso, Hugo já não parece ressaltar-se diante dessa geografia bestial dos símbolos e das coisas ensimesmadas. Caleidoscópicas visões e pressentimentos aterradores emergem da pequena constelação de personagens dessa praça dominical. O engraxate meio vesgo que observa as anomalias da tv, junto a um grupo de taxistas, moucos ao trabalho para atender seu telefone que toca por certo tempo irritante. A prostituta e o miche estão logo ali esperando mais uma redenção noturna, O farmacêutico, atônito, esquelético, esconde-se em suas vidraças blindadas e seus parangolés coloridos, As cartas, Se embaralha ao chão esse mar ensimesmado, Hugo gira a dama de copas entre os dedos, trêmulos, parecendo querer resolver um misterioso enigma. O caleidoscópio se fecha e em seguida se dilata, Juntando ao jogo a rainha impávida, Todo poderosa, Sedutora de cavalos, intrigueira de bispos, ameaça das torres, e cortesã de empamonhados reis, Ela em seu gesto ferino, Sem rubor, Se move sempre em possível bote. Acaso queres algo com meu corpo? Ela diz e corre, e volta e bate em Hugo, Rompeu o rasgo da agonia, num-susto-ladeira-acima, cantou e riu-se dele, Fez piruetas pelas ruas, descia num raio as ladeiras, Fazendo da cidade um reino particular para suas brincadeiras, Uma espécie de adega sagrada, Com seus perfumes, Suas texturas, Suas cores, Andava acaso nua? Andava nua em pelo, Sem tirar as roupas, Andava não mais comedida pelas impostações que é dado às mulheres, Andava na linha, no centro da rua, Entre os carros, Em reverencias à 80 por hora, Ao som das buzinas e seus uivos, E um trompete que rasgava a noite, ali imaginativo, Mendigava aos carros que passavam, Andava nua, nua, pela rua. Nua, Cecília pela rua.

Thiago Luz Raft